domingo, 22 de junho de 2014
12 HOMENS E UMA SENTENÇA
Em 1957, o diretor Sidney Lumet criou o melhor filme sobre tribunal da história do cinema. Ainda melhor que outros grandes filmes do gênero como Anatomia de um Crime, Testemunha de Acusação, Julgamento de Nuremberg e O Veredicto. A história é a seguinte: Doze jurados entram numa sala para decidirem se um adolescente é ou não culpado de ter matado o próprio pai. A conversação dos jurados ocorre logo após os advogados terem apresentados suas defesas. Agora cabe aos homens naquela sala, o veredicto que dirá se o tal adolescente é inocente ou culpado
Ali dentro, os 12 homens se sentam pra votarem. Onze deles só querem sair logo dali, não aguentando mais o intenso calor e as árduas horas que já estão ali, e já se dizem convencidos da culpa do acusado. Mas um deles, o jurado nº. 8 (brilhantemente interpretado por Henry Fonda) não quer se precipitar e espera uma discussão entre o grupo pra só depois se pronunciar. Ele não diz achar que o acusado é inocente, mas também não diz que o acha culpado, ele apenas quer sair dali com a certeza de que votou com consciência e racionalidade.
Acontece que os 11 homens decididos a votarem contra, não estão com paciência ou boa vontade para discutirem algo que já fora feito minutos antes pelos advogados. Eles acham que cabe agora a eles apenas colherem os fatos e decidirem. Mas como não se pode chegar a um veredicto se um deles votar diferente, é preciso que se chegue a um consenso. Mas o que parecia ser algo rápido se torna um verdadeiro duelo de opiniões. E é justamente aí que não piscamos nossos olhos por um segundo. Cada palavra, cada atitude, conta para que alguém apresente uma nova visão dos fatos. O jurado nº. 8 consegue ganhar adeptos, pouco a pouco ele vai conseguindo convencer seus colegas de que um fato ou outro não se encaixa, começa a apresentar provas que põe em dúvida a participação do adolescente naquele crime. Mas há uma parte do grupo do contra que não está disposto a ceder e jogam de igual pra igual. Assim, um jurado que antes fora convencido de uma coisa, pode mudar de opinião em seguida, e também, quem se calara, de repente apresenta uma nova versão pros fatos e muda todo o rumo da discussão ou por si só acrescenta mais detalhes. Mas, uma dúzia de homens dentro de uma sala, entrando em discórdia, consequentemente não poderia dar em coisa boa, daí, problemas pessoais vêm à tona: pais autoritários, infância dolorida, ajustes de conta, consciência pesada e outros temas, começam a aparecer e se misturam àquela discussão que parece não ter mais fim.
Em 1943, Fonda havia feito também outro ótimo filme sobre defesa e acusação, o excelente western Consciências Mortas, em que um grupo de moradores de uma pequena cidade se precipita e quer levar à forca 3 homens acusados de cometerem um crime.
12 homens e uma Sentença é um clássico absoluto. A obra-prima do diretor Lumet (Rede de Intrigas, Um Dia de Cão, O Veredicto, Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto). Um filme tenso e totalmente diferente de muito do que já foi visto nas telas. Nunca envelheceu e continua super atual. Tem um elenco fantástico que inclui além de Fonda, Martin Balsam, Lee J. Cobb, Jack Warden e Ed Begley, entre outros.
Indicado aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro adaptado.
Recomendado pra quem é aluno de Direito e quem se interessa por uma boa trama de tribunal, e especialmente pra quem procura uma sessão de cinema de alta qualidade.
Nota: 5 de 5
titulo original: 12 Angry Men
lançamento: 1957 (EUA)
direção: Sidney Lumet
Atores: Henry Fonda, Martin Balsam, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, John Fiedler , E.G. Marshall, Jack Klugman,
Ed Binns, Joseph Sweeney, George Voskovec e Robert Webber
duração: 96 min
gênero: Drama
VALSA COM BASHIR
Imagine um filme sobre uma guerra histórica, contada em forma semi-documental e ainda por cima como animação? Nada comum não é? Agora imagine que esse filme tem um roteiro no qual os acontecimentos vão e vem no tempo. Parece ser complexo não é? pois é, Valsa com Bashir na verdade é muito mais complexo do que podemos imaginar, vai além de uma mera experiência de um soldado em uma guerra. É uma obra forte e contundente, no qual os fatos surgem do nada, pra começarem a fazer sentido na cabeça de um homem que involuntariamente não imaginava que um dia esteve no massacre dos campos de refugiados palestinos Sabra e Chatila, em Beirute no Líbano. Com o exército de Israel no foco desse extermínio.
O interessante é que o diretor Ari Folman é o próprio protagonista, o ex-soldado sem memória que vê sua vida mudar depois de um sonho contado por um velho amigo. No sonho, seu amigo está sendo perseguido por 26 cães raivosos. Seu amigo lhe conta o significado desse sonho. Depois disso, Folman começa a ter lampejos de lembranças de seu período como soldado das tropas israelenses. Ele vai entrevistando amigos do passado, procurando colher informações que o ajude a entender qual o seu papel naquela guerra, e por que ele se esqueceu de algo que ninguém jamais esqueceria? Afinal, se não nos esquecemos de pequenas coisas em nossas vidas, como esquecer de um massacre de proporções gigantesca?
Aos poucos tudo vai sendo mostrado em flashbacks e a verdade vai vindo à tona. Vamos sendo apresentados aos maiores horrores de uma guerra, suas loucuras e consequências. Não há uma cena desnecessária, não há discursos planfletários, nem atos de heroísmos. Mas o que vemos são atitudes inusitadas e até mesmo covardes de soldados, seus devaneios (um deles literalmente surta em pleno tiroteio e atira a esmo no inimigo, dançando ao lado de cartazes do libanês Bashir Gemayel, líder de uma forte milícia contra muçulmanos e militantes palestinos. Todas as cenas de guerra são de forte impacto visual e emocional. Ao montar seu quebra-cabeças, Folman chega ao fatídico clímax, onde culminou no terrível massacre que dizimou milhares de pessoas naqueles campos de guerra (Algo que nos faz lembrar dos campos de concentração da Segunda Grande Guerra).
Os pais devem ser avisados de uma coisa: Por ser uma animação, muita gente confunde as coisas e acha que todo "desenho animado" é coisa pra criança, e isso é um grande erro. Valsa com Bashir nada tem de infantil; pelo contrário, ele chega a ser mais forte e chocante do que por exemplo: Platoon, de Oliver Stone. Aqui há cenas que vão mexer até mesmo com aqueles mais acostumados com esse tipo de produção. Confesso que me chocou bastante, e me fez refletir sobre muitas coisas relativas às atitudes de homens que detém o poder bélico. Repito, não é um filme pra crianças, há cenas de todos os tipos, é de fato um filme pra adultos, com temática adulta. O diretor Folman fez em forma de animação, na tentativa de atrair públicos de várias faixas etárias, lógico que estamos falando de pessoas adultas. Na verdade usou-se uma técnica chamada rotoscopia (alguém se lembra de O Homem Duplo, com Keanu Reeves, no qual é utilizado esse mesma processo?) em que desenha-se em cima dos quadros de filmagens de atores reais e o resultado animado dá uma sensação de que estamos vendo pessoas em forma de cartoon.
Concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes e ganhou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Ao concorrer nessa mesma categoria no Oscar, perdeu o prêmio para o japonês A Proposta (outro belíssimo filme).
Valsa com Bashir é um espetáculo visual, uma obra-prima, uma aula de história e uma reflexão sobre o próprio ser humano. Com certeza um dos melhores filmes dos últimos tempos.
Nota: 5 de 5
titulo original: Vals im Bashir, 2008
lançamento: 2008 (Alemanha/França/Israel)
direção: Ari Folman
Animação
gênero: Guerra, Documentário.
A FITA BRANCA
Em uma cena do clássico Julgamento de Nuremberg (1961), o personagem de Spencer Tracy (um juiz americano encarregado de presidir um julgamento de quatro carrascos nazistas após o término da Segunda Guerra), pergunta a dois empregados alemães se eles não sabiam o que estava acontecendo ali durante o Holocausto. Sua dúvida é significativa, uma vez que a barbárie foi tão intensa, fica a dúvida: Até onde cada cidadão sabia? Por que o povo alemão deixou que todo aquele horror se estendesse a uma coletividade tão grande? Por que o povo alemão deixou ocorrer tamanha atrocidade? O que o teria levado a isso? É essa última pergunta que vemos no filme A Fita Branca (2009), dirigido pelo austríaco Michael Haneke.
Numa aldeia alemã, antes da Primeira Guerra Mundial, as pessoas ali, vivem de acordo às regras patriarcais, regras essas, exercidas por mãos de ferro, onde impera a autoridade máxima dos chefes de famílias. Há ali um pastor que pune brutalmente seus filhos, chegando a amarrar um deles na cama para que este não volte a se tocar; uma de suas filhas é colocada em pé de castigo por uma bobagem praticada (A fita branca do título é amarrada nos braços de seus filhos em forma de “purificar seus pecados”). Em outra família, um pai molesta a própria filha, humilha a amante e não consegue ter aproximação com seu filho menor. Um outro pai espanca um filho por este ter lhe omitido algo. Em meio a essas repressões, começam a acontecer crimes pequenos e grandes, que vão de violência física a tentativas de crimes e assassinatos.
Os adultos agem com rigor excessivo, as mulheres são humilhadas, as crianças são submetidas a altos graus de repreensão. Tudo isso eleva os ânimos daquela aldeia a um estado de medo, ira, revolta e indignação. Haneke com isso, nos mostra uma geração de crianças que, tomadas por tais sentimentos, cresceriam e viriam a tomar para si a causa do Nazismo, abraçando-o como uma verdadeira base de vida a ser seguida. Essas crianças seriam o protótipo do ideal proposto por Adolf Hitler, onde os filhos dessa “herança maldita” fariam parte da Juventude Hitlerista e consequentemente ajudariam a causar um dos maiores temores já vistos na história da humanidade: O Holocausto. A figura paterna de Hitler, com seus discursos imponentes e autoritários, seria uma substituição psicológica para aquelas pessoas que viviam em lares sem afetos, cheios de regras e punições.
Em A Fita Branca, os atos de maldade praticados contra deficientes (Hitler não gostava de pessoas com deficiências, mandou exterminar vários deles), crianças e adultos se tornam símbolo da intolerância social, enraizado no meio onde se vive, remetendo a algo como o Naturalismo. Mas segundo o próprio diretor, sua obra vai além disso, é atemporal, não se limita a uma época ou grupo social apenas.
Nas obras de Haneke, o mal é algo do qual não se tem controle, é uma força que não tem como se sair dela. Como em seu Violência Gratuita (1997, refilmado posteriormente pelo mesmo diretor em 2007), a maldade é o centro das atenções.
Narrado em off por um professor daquela aldeia, ele se mostra uma das únicas pessoas a não ser contaminado por tudo aquilo, mas buscando respostas para os crimes ali cometidos. Talvez o fato dele viver só, contribua para que não seja mais uma daquelas pessoas, alvo de suas próprias punições.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, A Fita Branca é de longe, um dos filmes mais polêmicos de 2009. Muitos gostaram, outros odiaram. Mas uma coisa é certa: é uma obra que levanta muitas discussões, e isso é algo raro no cinema nos dias de hoje.
Nota: 4 de 5
titulo original: Das Weisse Band - Eine Deutsche Kindergeschichte
lançamento: 2009 (Áustria) (França) (Alemanha) (Itália)
direção: Michael Haneke
Atores: Burghart Klaubner, Susanne Lothar, Ulrich Tukur, Josef Bierbichler, Marisa Growaldt, Christian Friedel, Leonie Benesch.
duração: 144 min
gênero: Drama
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